sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Suicídio aumenta no Brasil: são 31 casos por dia



Foto: Susana Vera/Reuters

O Brasil registrou um aumento de 16,8% na taxa de mortalidade por suicídioentre 2007 e 2016. Dados divulgados nesta quinta-feira, 20, pelo Ministério da Saúdemostram que, no ano mais recente da série, ocorreram 5,8 óbitos a cada 100 mil habitantes. Em 2007, a proporção era de 4,9. O crescimento está relacionado sobretudo ao aumento de casos entre homens. No período analisado, foi de 28%.

Ao todo, foram registrados, em 2016, 11.433 casos de pessoas que tiraram a própria vida no País. Isso equivale a 31 óbitos por dia. A estimativa, no entanto, é de que os números sejam ainda maiores.


“Consideramos que cerca de 20% das mortes não têm a causa registrada”, afirma a diretora de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis, Fátima Marinho.

O trabalho conduzido por Fátima mostra que a taxa de mortalidade é expressivamente maior entre homens: 9,2 casos por mil habitantes. No grupo feminino, a taxa é de 2,4. Embora as taxas de morte sejam superiores entre homens, indicadores de tentativa de suicídio são maiores entre as mulheres.

Para Fátima, a diferença pode ser um indicativo de que as mulheres muitas vezes buscam com o ato chamar a atenção para o sofrimento, não necessariamente morrer.

“E isso geralmente por questões familiares. Muitas são chefes de família e sabem o impacto que a morte poderia provocar para filhos.”

Fátima afirma que a meta agora é aprofundar os estudos sobre os fatores de risco para o suicídio. Avaliações preliminares já dão pistas importantes. Um deles é o desemprego. Na análise dos casos de tentativas, cerca de 40% dos casos não trazem a informação sobre a situação profissional da vítima. Mas nos casos em que o registro é feito, 52% indicavam que a pessoa estava desempregada.

“Ele desponta como fator associado. Também vemos que as mulheres vítimas de violência têm risco muito maior”, completa.

Para a diretora, isso explicaria, por exemplo, o fato de um grande número de meninas tentarem suicídio. “Temos casos de tentativas em faixas muito novas, de meninas com 12 anos.”

Fátima afirma que o suicídio é um problema de saúde pública, não apenas no Brasil como no mundo. “Isso traz a necessidade de discutirmos o tema, os vários determinantes que levam ao sofrimento na população.”

Ela observa ainda que os dados devem ser analisados de forma a traçar estratégias de prevenção. “Precisamos ver as ações que podem ser adotadas para prevenir novos casos”, diz.

Prevenção

Estudos mostram, por exemplo, que a existência de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são considerados como fator de proteção. Em locais onde o centro está em funcionamento, o risco de suicídio é 14% menor. A constatação é relevante, sobretudo quando se analisam também os gastos do Sistema Único de Saúde (SUS) com internação de pessoas que tentaram suicídio por meio da ingestão de medicamentos, venenos ou pesticidas. O SUS gasta em média R$ 3 milhões anuais para essa assistência. O valor é equivalente ao custo de implantação de custeio de 8 CAPS anuais.

“Seria uma forma de prevenção muito efetiva”, observa Fátima.
Apesar de já haver tal constatação, a análise dos dados mostra que não houve um aumento da implantação de CAPS em áreas onde as taxas de suicídio aumentaram. No Piauí, por exemplo, um Estado que chama a atenção pelo avanço do problema não teve nenhum novo CAPS implantado dentro da política de expansão. Questionado, o coordenador do programa de Saúde Mental, Quirino Cordeiro, afirmou que a instalação depende de solicitação dos Estados.

O coordenador deixou claro ainda que deverá haver um aumento de vagas para leitos psiquiátricos em hospitais gerais. A medida, de acordo com ele, seria importante para atender pacientes em situação de risco.

Segundo Cordeiro, o País é o que apresenta uma das menores taxas de leitos para urgências psiquiátricas: 0,3 para cada mil habitantes.

“Isso sabidamente aumenta os riscos”, disse. Ele, no entanto, afirmou não haver ainda uma meta específica.

Fátima, contudo, tem avaliação distinta. Ela afirmou que a maior parte dos pacientes que tentaram suicídio precisam de tratamento médico, não necessariamente uma internação em leitos psiquiátrico, e que doenças psiquiátricas anteriores têm pouca relevância sobre os fatores de risco para o suicídio.

Prevenção do suicídio passa pela restrição da venda de agrotóxicos, diz diretora do Ministério da Saúde

Fátima defendeu nesta quinta a adoção de políticas que restrinjam o acesso à pesticidas e raticidas no País como forma de se prevenir casos de suicídio. Entre as medidas sugeridas, está a proibição da venda desses produtos em pequenas embalagens. “Apresentações maiores são mais caras. E o preço maior pode ajudar a coibir pessoas a comprar o produto e deixar em casa”, afirma Fátima.

De acordo com ela, técnicos da pasta iniciaram um estudo sobre os reflexos à saúde pública provocados por agrotóxicos. As análises vão embasar medidas de prevenção. “Os números começam a indicar que agrotóxicos aumentam não apenas o risco de suicídio, mas de casos de aborto e má-formações”, disse.

O levantamento divulgado nesta quinta mostra que mais da metade (57,6%) das tentativas de suicídio no País foram por meio de intoxicações, como envenenamento ou abusos de substâncias. “Já conseguimos reduzir de forma muito significativa o uso de medicamentos nas tentativas de suicídio. Agora é a vez de agirmos com pesticidas e venenos”, completou.

Além de ser a principal causa de tentativa de suicídios, a intoxicação exógena responde por 18% das mortes. Os números aumentaram de forma expressiva nos últimos 11 anos. Entre mulheres, indicadores passaram no período de 5.264 para 26.251. Entre homens, de 2.471 para 10.028. Medicamentos ainda são os principais agentes tóxicos utilizados, seguidos por raticidas e agrotóxicos.

ESTADÃO CONTEÚDO